Há sempre uma criança escondida em algum lugar. Isso porque aquela velha brincadeira de esconde-esconde ainda existe, e o adulto sensível que se permitir afrouxar a gravata e brincar um pouco, certamente corre o risco de acabar encontrando uma criança sapeca num lugar muito bacana: dentro de si mesmo.
Quem é amante das letras e das artes (poesia, música, pintura, etc.) já deve ter, algum dia, ouvido falar e concordado com a ideia de que o artista não tem sexo. Com efeito, esse é um fato antigo já conhecido na época do Trovadorismo: as Cantigas de Amigo, apesar de o eu-lírico expressar, entre outras, a saudade e a angústia de camponesas pela ausência de seus amados, eram, na verdade, de autoria masculina. Ainda hoje temos ótimos poetas, como, p.ex., Caetano Veloso e Chico Buarque de Holanda que, em algumas de suas obras, parecem conhecer o universo feminino melhor que muitas mulheres. O mesmo acontece com artistas mulheres em relação ao universo masculino. Nesse sentido talvez seja certo dizer, ainda, que além de sexo, o artista também não tenha cor, nacionalidade, classe social, etc... Lembrando Mario de Andrade:
(...) O assunto poético é a conclusão mais antipsicológica que existe. A impulsão lírica é livre, independente de nós, independente da nossa inteligência. Pode nascer de uma réstia de cebolas como de um amor perdido.
Fechando novamente o foco sobre o tema proposto - a poesia infantil - é interessante concluir que, de tudo o que um artista, poeta, mulher, homem, ser humano deve ou não deve ser quando expressa sua vida e sua arte, seja esta o tipo que for, que não se esqueça de ser um pouco criança, e isso não é tão difícil: basta soltar a gravata e brincar de esconde-esconde com a poesia que mora em seu peito.














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